BRASÍLIA - A troca de mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro repercutiu nesta quarta-feira (13/5) em Brasília entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), parlamentares do PL e presidenciáveis.

Cotado até abril como possível vice para a chapa de Flávio, o pré-candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) afirmou que a revelação é um "tapa na cara dos brasileiros". "Ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável", disse. "Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil", acrescentou.

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A relação entre Flávio e Vorcaro foi revelada pelo "The Intercept Brasil". A reportagem publicada no início da tarde detalhou que o senador pediu US$ 24 milhões — R$ 134 milhões na cotação da época — a Vorcaro para pagamento de despesas do filme biográfico de Jair Bolsonaro (PL). O longa "Dark Horse" é produzido nos Estados Unidos e estreará no dia 11 de setembro.

 Questionado, Flávio admitiu ter cobrado dinheiro do sócio-fundador do Banco Master, investigado pelo maior escândalo financeiro da história do Brasil, mas se defendeu. "Não ofereci vantagens em troca. Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", disse em nota.

Zema não foi o único presidenciável de direita a criticar Flávio. Renan Santos (Missão) também o atacou e seu partido antecipou que apresentará o pedido de cassação do mandato de Bolsonaro no Conselho de Ética do Senado e representará contra ele no Ministério Público Eleitoral.

"Flávio Bolsonaro entrou em todos os esquemas que foram possíveis: da rachadinha ao Banco Master. Não tem mais condição moral de permanecer no Senado ou de ser candidato a presidente do Brasil", afirmou a Executiva.

Parlamentares também reagiram. A bancada do PT na Câmara dos Deputados apresentou uma notícia de fato à Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo prisão preventiva do senador, quebra dos sigilos bancário e telefônico dele, apreensão de celulares e computadores e instauração de inquérito na Polícia Federal (PF) para investigá-lo.

O pedido também é assinado pela líder do PCdoB, deputada Jandira Feghali (RJ), e pelo líder da bancada do PSOL, Tarcísio Motta (RJ). Outros políticos também ingressaram com notícias-crime na PGR. 

A reportagem do "Intercept" também suscitou a reação do Partido Liberal. O líder da bancada na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), defendeu o senador. "Os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos", afirmou em nota.

 "Não aceitaremos tentativas de transformar uma iniciativa privada em narrativa política artificial para atingir adversários", acrescentou. O posicionamento repete o discurso adotado por Flávio em sua própria manifestação.

O que alegou Flávio Bolsonaro? 

O senador admitiu ter cobrado dinheiro de Vorcaro. "O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet", declarou em nota. "Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro", acrescentou.

O áudio de Flávio a Vorcaro data de 8 de setembro de 2025, quatro dias após o Banco Central (BC) rejeitar a aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB), em análise desde março. A rejeição considerou os problemas de liquidez do banco de Vorcaro e as suspeitas sobre os ativos da instituição, considerados de má qualidade ou de difícil recuperação.

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Ainda na nota em que se justifica, Flávio afirma que mandou o áudio para Vorcaro com a intenção de cobrá-lo sobre os valores prometidos para o filme. "O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme. Não ofereci vantagens em troca. Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem", declarou. O pré-candidato, entretanto, não se posicionou sobre as mensagens trocadas por WhatsApp com Vorcaro na véspera da prisão do banqueiro.

Conforme noticiou o Intercept, os dois se falaram em 15 e 16 de novembro do ano passado. Na conversa, Flávio prometeu que estaria "sempre" com o empresário. No dia 17, a PF prendeu Vorcaro enquanto ele tentava fugir do país em avião particular para evitar a investigação sobre a fraude bilionária do banco contra o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — naquele que é tratado como o maior escândalo financeiro do Brasil. Depois, no dia 18, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master, fechando as portas da instituição.

A troca de mensagens, segundo o Intercept, começa às 15h46 do dia 15, quando Vorcaro escreve para Flávio: 

"Fala, irmão. Tava trânsito voo o tem (sic)". 

O senador responde um minuto depois: "Fala, mermão. Pode atender?". 

A conversa continua apenas no dia 16 às 10h37 com mensagem de Vorcaro para Flávio. Ele se justifica: "Fala, irmãozão. Tô na igreja. Terminando te chamo".

Cinco horas depois, às 15h38 e às 15h43, Flávio responde enviando duas mensagens de visualização única. A estratégia é semelhante à que teria sido usada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para manter sigilosas as mensagens que mandou para Vorcaro no WhatsApp. 

Depois, às 15h46, Flávio completa: "irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!". 

Vorcaro responde seis minutos depois com uma imagem de visualização única. Flávio encerra a conversa com "amém".

CPI

Na nota à imprensa, Flávio cobrou a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Banco Master. "Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos", disse. "Reitero, CPI do Master já!", completou.

O escândalo de Daniel Vorcaro é alvo de interesse eleitoral do PL, que, no último sábado (9/5), agiu para tentar colar a fraude ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em ato de campanha em Santa Catarina, Flávio subiu ao palco com uma camiseta que estampava: "Pix é do Bolsonaro. Master é do Lula". 

O assunto também é disputado no Congresso Nacional. Nas últimas duas semanas, a base do Palácio do Planalto cobra do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a instalação de uma comissão mista para investigar o Caso Master.

Deputados e senadores do PT defendem, desde então, que um acordão aconteceu para impedir que a CPI acontecesse. Segundo esses parlamentares, a oposição aceitou que a CPI não fosse instalada em troca de Alcolumbre conseguir que a indicação de Jorge Messias para o STF fosse rejeitada.

Eduardo e Frias

A reportagem do Intercept revelou que Flávio Bolsonaro negociou o patrocínio diretamente com Vorcaro. O banqueiro teria combinado o pagamento em 14 parcelas, mas honrado apenas as seis primeiras entre fevereiro e maio de 2025 — um total de US$ 10 milhões, cerca de R$ 61 milhões.

Além de Flávio, também teriam intermediado as conversas o irmão dele, deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL), e o deputado federal Mário Frias (PL-SP).